Chamada de “Venus de Hontentote”, é a mulher que se transformou em uma atração de circo pelas suas nádegas enormes

A vida no continente africano nunca foi fácil e há 2.600 anos atrás era ainda mais exigente do que é nos dias de hoje. É impressionante quando pensamos que, após diversas viagens, descobertas, explorações e os enormes avanços da globalização, ainda existem nos dias de hoje tribos que muito pouco ou mesmo nenhum contacto tiveram com o chamado “homem moderno”.

Não os podemos condenar por isso, pois temos a perfeita noção de que o homem branco nunca trouxe nada de bom para estes povos e é normal que eles evitem o contacto. Pelo menos, não para a tribo Khoikhoi.

Autor desconhecido

O primeiro encontro entre a tribo Khoikhoi e o homem branco ocorreu pelas mãos dos portugueses e holandeses que colonizaram África no início do século XVII. Embora numa fase inicial a própria tribo e as mulheres tivessem despertado um certo fascínio no homem ocidental, os eventos posteriores não foram nada felizes.

As mulheres Khoikhoi

A tribo Khoikhoi tem uma característica que a distingue das demais. As mulheres apresentam um curioso traço genético: nádegas extremamente grandes.

Tribo Khoikhoi

É uma característica genética chamada pela ciência de esteatopatia, que dá origem à acumulação em excesso de gordura nas nádegas. Várias publicações relatam que existiam mulheres na tribo com nádegas de quase um metro de diâmetro.

De acordo com alguns estudos antropológicos, esta singular característica era muito comum nas primeiras populações humanas, com particular incidência nas mulheres do Neolítico.

Existe uma figura muito famosa chamada Vênus de Willendorf que data de entre 28.000 e 25.000 aC e que supostamente descreveria com perfeição esse tipo de mulher, de acordo com o NYTimes.

Vênus de Willendorf

Essa característica distinta fez com que as mulheres de Khoikhoi passassem a ser vistas pelo homem branco como valiosas “peças” comercializáveis. Rapidamente, as mulheres da tribo começaram a ser vendidas como escravas.

A maioria delas eram vendidas como escravas para realizarem trabalho doméstico, mas há um caso especial de uma mulher que foi alvo de humilhação histórica, falamos de Venus de Hontentote.

O seu nome era Saartjie Baartmann, nascida em 1789, a mulher levou uma vida tranquila e livre até 1810, quando um grupo de traficantes de escravos assassinou o seu pai e marido. Após ter sido “examinada” pelos bandidos, eles notaram que a mulher tinha nádegas enormes e uma genitália igualmente desproporcional.

Ela acabou vendida a um médico britânico nesse mesmo ano, que após se ter dado conta dos atributos da pobre mulher, decidiu conduzi-la ao seu futuro inferno, em Londres. Onde foi forçada a trabalhar num circo de exibição em Piccadilly, onde eram expostas as mais variadas “esquisitices”.

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O seu nome verdadeiro, Saartjie Baartmann, acabou substituído por outros nomes “artísticos” que seriam, alegadamente, mais atraentes para o público, como os exemplos de “Venus de Hontentote” ou “Rainha Africana”. A mulher era apresentada com esses nomes e descrita como um “fenômeno da natureza”, como curiosidade ou simplesmente como um ser aberrante.

A tortura desta mulher durou anos, Saartjie foi sujeita a diversas humilhações, tratada como um autêntico animal de zoológico enquanto era observada por olhares lascivos e mórbidos.

 

 

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Passados quatro anos, acabou transferida de Londres para Paris, onde a vida dela não sofreu qualquer melhoria. Continuou sendo objeto de entretenimento para o público até que, eventualmente, as pessoas se cansaram e Saartjie acabou desamparada nas ruas, abandonada ao seu destino, onde acabou por ter de recorrer à prostituição para sobreviver.

Foi no ano de 1815 que a tortura de Saartjie Baartmann teve finalmente um fim. Um final muito triste e degradante de uma vida de humilhação. A mulher acabou por falecer nesse ano devido a uma “doença inflamatória e eruptiva”. Sintomas que se devem provavelmente à sífilis contraída eventualmente na sua nova “profissão”.

Porém, nem a sua morte lhe trouxe descanso.

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Mesmo depois de falecer, a humilhação continuou. O seu cadáver foi comprado por um cientista francês. O cientista fez um molde de gesso com o corpo de Saartjie e em seguida, dissecou-o. Preservando assim o esqueleto e cérebro da mulher juntamente com os atributos que a tornaram famosa, acabando mais tarde exposta no Musée de l’Homme, em Paris.

Passados 160 anos, Vênus de Hotentote continuou a ser uma mera “peça” de entretenimento e a atrair a atenção do público. Apenas em 1974 foi retirada das exibições em museus.

Foi em 2002 que Nelson Mandela finalmente repatriou os restos mortais de Saartjie que recebeu o eterno descanso merecido na terra em que, em algum momento, foi uma mulher livre.

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